Dor Crônica: Quando o Sintoma Se Torna a Doença

Dor Crônica: Quando o Sintoma Se Torna a Doença

Por Joel Augusto Ribeiro Teixeira

> "A dor aguda é um mensageiro vital; a dor crônica é um inquilino que se recusa a sair, redecorando a casa enquanto o morador dorme."


Introdução

A dor é, por definição evolutiva, um sistema de alarme. Ela nos alerta para o fogo que queima a pele, para o osso que trinca sob o peso, para a infecção que corrói o tecido. Mas o que acontece quando o alarme não desliga, mesmo após o incêndio extinguir-se e a fratura consolidar-se?

A dor crônica é definida clinicamente como aquela que persiste por mais de três meses — ou além do tempo esperado de cura de uma lesão aguda. No entanto, essa definição temporal, embora prática, é insuficiente. Dor crônica não é meramente dor que dura muito tempo; é uma condição patológica distinta, onde o próprio sistema nervoso se transforma na fonte da enfermidade. Ela deixa de ser um sintoma para se tornar uma doença neurobiológica complexa, exigindo uma mudança de paradigma tanto do paciente quanto do médico.


1. A Plasticidade Mal-Adativa: O Sistema Nervoso Que Aprende a Doer

O cérebro humano é um órgão plasticamente notável — ele se reconfigura constantemente em resposta às experiências. Em condições normais, essa plasticidade permite que aprendamos idiomas ou toquemos violino. Na dor crônica, entretanto, a plasticidade torna-se um inimigo sutil.

Quando uma lesão tecidual persiste ou, paradoxalmente, mesmo após sua resolução, o sistema nervoso central pode desenvolver o que chamamos de sensibilização central. Nesse estado, os neurônios da medula espinhal e do cérebro diminuem seus limiares de disparo. Estímulos que antes seriam inodoros — uma leve pressão, uma mudança de temperatura — passam a ser interpretados como dolorosos (alodinia). O sistema de amplificação da dor fica "grudado" na posição de volume máximo.

Estudos de neuroimagem demonstram que, na dor crônica, o córtex somatossensorial — o mapa cerebral do corpo — sofre alterações morfológicas. A representação cerebral da área dolorosa pode expandir-se, invadindo territórios adjacentes, criando uma "sombra" de dor que se espalha além do local original da lesão. A dor, então, vive um eco neural independente de sua causa inicial.


2. O Modelo Biopsicossocial: Além do Tecido Danificado

Uma das descobertas mais importantes da medicina moderna é que a dor crônica raramente é um problema puramente estrutural. Imagens de ressonância magnética frequentemente mostram hérnias de disco graves em pacientes assintomáticos, ao passo que outros, com dor debilitante, apresentam exames radiológicos discretos.

Isso não significa que a dor seja "psicológica" no sentido pejorativo de "imaginária". Significa que a experiência dolorosa é modulada por uma tríade inseparável:

Biologia: A sensibilização central e a neuroinflamação (ativação de células gliais) mantêm o fogo aceso.

Psicologia: O catastrofismo — a tendência de interpretar a dor como sinal de desastre iminente — amplifica as vias ascendentes da dor no tronco cerebral. A depressão e a ansiedade compartilham neurotransmissores (serotonina, noradrenalina) com as vias moduladoras da dor, criando um ciclo vicioso.

Social: O afastamento do trabalho, a solidão e a perda de papéis sociais alimentam a desesperança, que por sua vez aumenta a percepção dolorosa.

Tratar apenas o tecido (a hérnia, a artrose) ignorando esse contexto é como tentar apagar um incêndio florestal regando apenas uma única árvore.


3. O Fardo Invisível: Impacto Sistêmico

A dor crônica não se limita à sensação desagradável. Ela é uma cascata fisiológica que afeta todo o organismo.

O sono, como explorado em artigos anteriores, é particularmente vulnerável. A dor fragmenta o sono de ondas lentas (N3), impedindo a faxina glinfática e a consolidação da memória, criando um estado de "névoa cognitiva" que compromete a tomada de decisões e a tolerância ao estresse.

O sistema imune entra em estado de baixo grau de inflamação crônica (inflamaging), elevando marcadores como a proteína C-reativa. O eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal (HPA) fica disfuncional, com níveis flutuantes de cortisol que prejudicam a função cardiovascular e metabólica. O paciente crônico envelhece mais rapidamente em nível celular, como evidenciado pelo encurtamento dos telômeros.

A qualidade de vida, portanto, não é apenas reduzida — é reconstruída em torno da dor. O mundo encolhe até o raio de ação que o corpo dolorido permite.


4. Tratamento: Reconfigurando o Sistema de Alarme

Diante da complexidade da dor crônica, o tratamento unimodal (apenas remédios) falha previsivelmente. A abordagem contemporânea é multimodal e neuromodulatória, visando não apenas aniquilar a dor (objetivo frequentemente impossível), mas restaurar a função e reconfigurar a relação do paciente com sua própria experiência sensorial.

Farmacológico: O uso de opioides para dor crônica não oncológica demonstrou-se, em longo prazo, ineficaz e prejudicial. A ênfase recai sobre medicamentos adjuvantes — antidepressivos tricíclicos e inibidores de recaptação de serotonina/noradrenalina (que modulam as vias descendentes inibitórias), anticonvulsivantes (gabapentinoides para neuropatia), e anti-inflamatórios tópicos.

Intervencionista: Procedimentos como bloqueios de nervos, infiltrações epidurais e rizotomia por radiofrequência (discutidos em artigos específicos) servem para "resetar" a sensibilização periférica e central. Em casos selecionados, a estimulação da medula espinhal (neuromodulação) substitui a sensação dolorosa por uma leve formigamento (parestesia), interferindo no sinal antes que ele chegue ao cérebro.

Reabilitação Física: Não se trata mais de "fortalecer o músculo lesionado", mas de reintegração gradual motora (graded motor imagery), ensinando ao cérebro que o movimento é seguro novamente, desfazendo o padrão de evitação do movimento (fear-avoidance) que mantém a plasticidade dolorosa.

Psicológica: Terapias cognitivo-comportamentais (TCC) e Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) não eliminam a dor, mas reduzem o sofrimento associado, diminuindo o catastrofismo e melhorando a funcionalidade apesar da presença do sintoma.


Conclusão

A dor crônica é uma das maiores epidemias silenciosas da medicina moderna, afetando um em cada cinco adultos brasileiros. Combatê-la exige humildade: reconhecer que não podemos sempre "consertar" o corpo como se conserta uma máquina, mas que podemos, sim, reconfigurar o sistema nervoso para que o alarme falso seja silenciado.

O objetivo final não é necessariamente chegar a zero de dor — um alvo frequentemente ilusório e frustrante — mas expandir o raio de ação da vida até que a dor ocupe, novamente, apenas um canto pequeno da existência, e não seu centro gravitacional.


Referências Bibliográficas

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Nota: Artigo aplicável ao protocolo multidisciplinar de manejo da dor da Clínica Osaka. A integração entre neurocirurgia, reabilitação e psicologia oferece a melhor chance de reconfiguração do ciclo crônico.