🦴 Artrodese Cervical Anterior

🦴 Artrodese Cervical Anterior

Sinônimos: Fusão cervical pela frente, Cirurgia de disco cervical com cage

> "Quando o disco cervical desmorona e comprime os nervos, às vezes precisamos unir as vértebras para dar estabilidade definitiva — mas hoje fazemos isso sem placa na maioria dos casos, apenas com o cage inteligente."


📋 O que é?

Cirurgia pela frente do pescoço (via anterior) que remove o disco cervical danificado e coloca um cage (dispositivo em forma de caixa, geralmente de PEEK ou titânio) preenchido com enxerto ósseo entre as duas vértebras. Com o tempo, o osso cresce através do cage e une as vértebras permanentemente, eliminando o movimento doloroso e instável. Na técnica moderna que utilizamos, não colocamos placa de metal na frente das vértebras, exceto em casos muito específicos de instabilidade severa — o cage sozinho, bem posicionado, oferece estabilidade suficiente.


🎯 Quando é indicada?

🎗️ Hérnia de disco cervical que comprime a medula ou nervos, causando dor no braço ou fraqueza

🎗️ Espondilose cervical avançada (desgaste com osteófitos) causando radiculopatia ou mielopatia (compressão da medula)

🎗️ Instabilidade cervical traumática (fraturas/luxações)

🎗️ Tumores cervicais que precisam ser removidos com estabilização subsequente

🎗️ Recidiva de hérnia após cirurgia anterior no mesmo nível


🔧 Tipos de abordagem

🦴 Fusão com Cage (técnica padrão moderna) Removemos o disco e colocamos um cage com enxerto ósseo. O cage mantém a altura do espaço discal e permite que o osso cresça por dentro, unindo as vértebras naturalmente. Sem placa na frente — menos material metálico, menos risco de complicações da placa (disfagia, migração).

🔒 Fusão com Cage + Placa (casos excepcionais) Reservado para situações de instabilidade muito severa, trauma complexo ou quando o paciente tem osteoporose grave. A placa adiciona rigidez imediata, mas aumenta o risco de dificuldade para engolir temporária.

🔄 Artroplastia Cervical (alternativa à fusão) Em vez de unir as vértebras, colocamos uma prótese de disco artificial que preserva o movimento do pescoço. Indicada para pacientes mais jovens, com disco único degenerado, sem instabilidade óssea significativa. Protege os discos vizinhos do desgaste acelerado que às vezes ocorre após fusão.


⚙️ Como funciona o procedimento?

1️⃣ Incisão: Pequeno corte na dobra natural do pescoço (lado esquerdo, por segurança do nervo da voz), 3 a 5 centímetros

2️⃣ Acesso delicado: Deslocamos a traqueia e o esôfago (tubo do estômago) para o lado, protegendo a artéria carótida — tudo com monitoramento constante

3️⃣ Remoção do disco: Retiramos completamente o disco degenerado e quaisquer osteófitos (bicos ósseos) que comprimem a medula ou nervos

4️⃣ Preparação do leito: Decorticamos a superfície das vértebras para estimular o crescimento ósseo

5️⃣ Colocação do cage: Inserimos o cage preenchido com enxerto ósseo (pode ser sintético ou do próprio paciente) no espaço vazio, restaurando a altura da coluna

6️⃣ Fechamento: Camadas suturadas com material absorvível, cola na pele — sem pontos para retirar

⏱️ Duração: 1 a 2 horas por nível operado.


🌱 O que esperar da recuperação?

🏥 Internação: 1 a 3 dias (dependendo da dor e segurança para engolir)

🏃 Mobilidade: Levante e ande no mesmo dia da cirurgia

🦴 Colar cervical: Pode ser necessário por 1 a 4 semanas (conforto e segurança), mas nem sempre é obrigatório na técnica sem placa

🍽️ Alimentação: Dieta pastosa nos primeiros 3-7 dias se houver desconforto para engolir (comum e passageiro)

🩹 Cuidados com a incisão: Praticamente invisível após cicatrização, na dobra natural do pescoço

📅 Retorno às atividades:

  • Escritório e tarefas leves: 2 a 4 semanas
  • Direção: quando mover o pescoço não causar desconforto (geralmente 2-3 semanas)
  • Atividades físicas e esforço: 3 a 6 meses (osso leva 3-6 meses para consolidar a fusão)

🎯 Resultados: Alívio da dor no braço em 90-95% dos casos; melhora da fraqueza pode levar meses para recuperar totalmente.


🛡️ Sobre segurança e cuidados especiais

A via anterior é delicada porque passa próximo à traqueia, esôfago e grandes vasos sanguíneos, mas é a mais segura para descomprimir a medula cervical.

Riscos específicos e como os prevenimos:

  • Dor/dificuldade para engolir (disfagia): Comum nos primeiros dias, geralmente passageira. Usamos técnicas sem placa justamente para minimizar isso
  • Rouquidão (voz rouca): O nervo da voz (laríngeo recorrente) fica perto do campo cirúrgico — 2-5% dos casos, geralmente transitório em semanas
  • Fístula esofágica (vazamento): Rara (<1%), mas grave — prevenimos com técnica meticulosa e fechamento em camadas
  • Pseudoartrose (não-consolidação): 5-10% dos casos; mais comum em fumantes — monitoramos com raio-X/ressonância aos 6 meses
  • Doença do disco adjacente: O disco vizinho pode degenerar mais rápido em 10-20% dos casos em 10 anos (não é regra, mas possibilidade)

Por que evitamos a placa de rotina? A placa metálica tradicional pode causar mais desconforto para engolir, aumentar o risco de migração do implante e, em raros casos, lesão do esôfago por atrito. O cage moderno, bem posicionado com pressão ajustada, oferece estabilidade suficiente para a fusão ocorrer naturalmente em 90% dos casos, com menos material estranho no corpo.


⚖️ Tomada de decisão

A fusão cervical é indicada quando:

🔹 Há compressão neural com instabilidade mecânica real ou risco de deterioração

🔹 O paciente já tentou tratamento conservador sem sucesso (fisioterapia, medicamentos)

🔹 Há mielopatia (compressão da medula) — aqui a cirurgia é preventiva contra paralisia

A artroplastia (prótese) é preferível quando:

🔹 Paciente jovem (<50-60 anos) com disco único saudável vizinho

🔹 Não há instabilidade óssea significativa no raio-X dinâmico

🔹 Queremos preservar movimento e proteger os discos adjacentes

Evitamos fusão em:

🔹 Pacientes com osteoporose severa não controlada (risco de falha do implante)

🔹 Fumantes ativos (taxa de não-consolidação chega a 40% vs 10% em não-fumantes)

🔹 Infecção ativa na região (tireoidite, faringite)


⚠️ A decisão entre fusão com cage, fusão com placa ou artroplastia depende da sua idade, condição óssea, número de níveis afetados e expectativas de mobilidade. Discutiremos detalhadamente qual técnica oferece o melhor balanço entre estabilidade e preservação da função para o seu caso específico. Este conteúdo não substitui avaliação neurocirúrgica individualizada.